Dengue faz economia do Brasil perder até US$ 1,2 bilhão por ano

O mosquito Aedes aegypti, transmissor de Zika, dengue e chikungunya (Foto: Shutterstock)
Maior impacto financeiro não é com tratamento, e sim com danos à produtividade; regiões ricas são mais afetadas

O Brasil está perdendo até US$ 1,2 bilhão por ano por causa da dengue, indica um estudo que avaliou em detalhes o impacto econômico da doença no país. O trabalho, um esforço de múltiplos centros de pesquisa liderados pela Fiocruz de Pernambuco, avaliou o período entre 2009 e 2013, quando o país registrou o grande salto de incidência da doença.

O estudo[1] cobre os anos em que a doença passou de 406 mil casos registrados (2009) para 1,45 milhão (2013). Ao contrário do que leigos poderiam imaginar, casos da dengue que não levam à internação somam a maior parte das perdas econômicas, e uma parcela razoável do prejuízo se concentra nas regiões mais ricas do país.

Para estimar o valor, cientistas liderados pela epidemiologista Celina Turchi fizeram um levantamento detalhado de mais de 2.000 casos de dengue em todas as regiões do país. Depois, projetaram os números para a escala nacional, usando registros do sistema de vigilância do Ministério da Saúde.

“Considerando esta série temporal de dengue, os custos da dengue variaram de US$ 371 milhões (2009) a US$ 1,288 bilhão (2013)”, escrevem os pesquisadores. Quando se trata da presença de outros vírus que infectam o Aedes aegypti, porém, o prejuízo coletivo é ainda maior, porque o estudo de Turchi e colegas não levou em conta o impacto econômico da Zika e da chikungunya, que cresceram a partir de 2014.

Assim como nessas outras enfermidades, o impacto econômico da dengue permeia muitos aspectos da economia e vai além do tratamento médico em si. Além de computar gastos com exames, internação e medicamentos, os cientistas estimaram o impacto de faltas escolares e ausências no trabalho, além de outros fatores.

Como a maior parte dos casos de dengue são “ambulatoriais” (não resultam em internação), o impacto econômico se concentrou em fatores indiretos, como perda de produtividade em razão de faltas no trabalho.

“Os custos totais mais altos que o nosso estudo observou para casos ambulatoriais foram em regiões mais ricas”, escrevem Turchi e seus coautores. “Isso pode ser fruto de uma maior produtividade perdida e de um maior número de exames laboratoriais realizados.”

Isso não quer dizer, porém, que a camada mais pobre da população não seja afetada. Pelo contrário. Áreas onde o saneamento básico e a coleta de lixo são precários, por exemplo, tendem a sofrer mais com mosquitos. A perda monetária é que tende a ser maior onde existe mais dinheiro.

Os resultados da pesquisa foram publicados em 2015 num artigo na revista científica “PLOS Neglected Tropical Diseases”. O estudo só considerou números até 2013, mas se uma extrapolação direta for feita para os anos subsequentes, o impacto econômico deve ter atingido seu recorde em 2015, com US$ 1,45 bilhão. (Veja gráfico acima.) O impacto somado desde 2009 está na escala dos US$ 7 bilhões.

“O fardo econômico associado à dengue no Brasil é substancial”, escrevem Turchi e coautores. “Esperamos que nosso estudo ajude formuladores de política a tomarem decisões informadas ao estabelecerem metas e prioridades e ao avaliarem estimativas de impacto de quaisquer intervenções propostas para controlar a dengue.”


[1] Economic Impact of Dengue: Multicenter Study across Four Brazilian Regions. Celina Turchi et al. em “PLOS Neglected Tropical Diseases”. 24.setembro.2015. Link: DOI:10.1371/journal.pntd.0004042