Aedes aegypti roubou R$ 2,3 bilhões da economia do Brasil em um ano

Aedes aegypti: impacto significativo na economia do Brasil (Foto: Shutterstock)
Estudo mediu impacto direto e indireto de dengue, Zika e chikungunya no país em 2016

Um estudo recém publicado no periódico Jornal Brasileiro de Economia da Saúde indica que no ano de 2016, quando o Brasil teve cerca de 2 milhões de casos notificados de dengue, Zika e chikungunya, essas arboviroses roubaram R$ 2,3 bilhões do PIB nacional. O número, calculado por pesquisadores da Sense Company, um núcleo de consultoria na área da saúde, é a primeira estimativa geral de impacto econômico da presença do Aedes aegypti no país, levando em conta todas as endemias que ele sustenta.

A análise constatou que o custo do combate ao mosquito (por repasse de recursos federais e aquisição de pesticidas) representou 65% do impacto total do Aedes aegypti na economia do país, sendo que custos médicos diretos (relacionados ao tratamento das doenças) tiveram uma parcela de 16%. Os custos indiretos por absenteísmo (perda de produtividade por faltas ao trabalho) foram 19%. O estudo foi realizado por encomenda da Oxitec, empresa que desenvolveu o Aedes do Bem™.

“Arboviroses geram consideráveis impactos econômico e social ao Brasil”, afirmam os pesquisadores no estudo “Custos de combate ao vetor, custos médicos diretos e custos indiretos representaram 2% do orçamento previsto para a saúde no país, em 2016.”

Segundo a engenheira Vanessa Teich, professora do Insper, fundadora da Sense Company e líder do estudo, o trabalho se baseou em dados de 2016, o ano com maior incidência já registrada de arboviroses no país, porque a ideia era tentar estimar o potencial devastador dessas epidemias.

“Queríamos oferecer aos gestores uma visão mais completa para planejamento de combate a esses vírus, porque quando as políticas para controle do Aedes aegypti falham, há um impacto econômico muito grande que se soma ao sofrimento humano imposto por essas doenças”, diz Vanessa.

Além de medir as consequências econômicas das doenças causadas pelo Aedes aegypti em escala nacional, o estudo detalha números por estado. O trabalho permitiu enxergar que Zika, dengue e chikungunya impactam distintas regiões de forma diferente, afirmam os autores.

“Essas arboviroses têm tido distribuição geográfica diferente, o que torna o impacto muito diverso”, diz Lucas Fahham, coautor do estudo. “O Sudeste, que tem um PIB regional e concentração populacional maiores, sofreu muito com o impacto indireto por absenteísmo. O Nordeste, que teve uma incidência de arboviroses maior, teve números parecidos, mesmo não sendo tão populoso.”

Apesar de o Nordeste ter exibido um impacto econômico anual expressivo no estudo da Sense Company — R$ 761 milhões — a cifra é conservadora, pois o levantamento não incluiu dados da síndrome congênita do vírus Zika, que pode provocar microcefalia. “Os problemas neurológicos decorrentes da Zika certamente são o aspecto mais perverso do vírus, mas seu maior impacto é de longo prazo, na maneira como altera a vida das crianças afetadas e suas famílias”, afirma Vanessa. “Ainda é cedo para estimar um impacto de escala anual imposto por essa síndrome neurológica, por isso optamos por não incluí-lo na pesquisa. O único impacto médico direto incluído foi o custo de manutenção dos centros especializados em reabilitação para vítimas da Zika.”

As regiões Sudeste e Nordeste tiveram também os maiores valores de gasto no combate ao mosquito Aedes aegypti em 2016. Juntas, acumularam 69% do valor total destinado no país para este fim, quando contabilizados os repasses de verbas para vigilância em saúde, somados à aquisição de pesticidas.

O estudo da Sense Company, além de organizar os dados por estado e região, separa o gasto de diferentes categorias para cada tipo de impacto. Os gastos de combate ao mosquito, por exemplo, além de levar em conta a compra de inseticidas contabilizaram recursos do Piso Fixo de Vigilância em Saúde (PFVS), que determina uma verba fixa calculada com base na situação epidemiológica de cada estado e município, e do Piso Variável de Vigilância em Saúde (PVVS), que é determinado pelo Ministério da Saúde de acordo com a adesão de estados e municípios a programas específicos.

A estimativa de gastos médicos diretos usou dados do SUS e se deu por meio da contabilidade de casos das doenças multiplicados pelo gasto médio ambulatorial e hospitalar com pacientes. Já os custos do impacto indireto das arboviroses usou dados de renda média da população e uma estimativa de dias em que os pacientes tinham de se ausentar no trabalho. Para Zika e chikungunya, foram estimados também os anos de vida ajustados por incapacidade (AVAI), medida que define o tempo de vida perdido por um indivíduo como resultado de uma doença ou morte prematura.

Os números apresentados no trabalho não abrem margem para dúvida sobre a escala de dano que o Aedes aegypti produz no Brasil. “As arboviroses são responsáveis por um considerável impacto econômico e social”, diz Vanessa. “Os valores que estimamos podem ser considerados um patamar mínimo de impacto econômico, porque não foram levadas em conta as estimativas de subnotificação, ou seja, dos casos sem registro oficial.”

Existem estimativas de subnotificação no país, mas elas são limitadas ainda. Um levantamento feito em Minas Gerais concluiu que, para cada caso de dengue com atendimento médico, 4,8 casos acabam sem registro, o que faria o impacto real no estado ser multiplicado por quase 5 vezes. Não se sabe se o mesmo nível de subnotificação vale para outros estados, mas essa ampliação estimada da incidência da dengue já elevaria o impacto anual das arboviroses para mais de R$ 4 bilhões. Outra limitação do estudo foi a não inclusão de impacto da presença do Aedes no turismo, que foi um fator relevante em 2016, quando notícias sobre a Zika afetaram a audiência da Olimpíada no Rio. Impactos de longo prazo, como os anos de produtividade perdidos por vítimas das arboviroses que morrem antes de completar a expectativa de vida média do país, também foram excluídos.

“Tomamos esse cuidado para evitar superestimar o peso econômico das arboviroses usando variáveis sobre as quais não temos controle, mas sabemos que o impacto tem potencial para ser muito maior”, diz Vanessa. Apenas uma inclusão dos custos da síndrome congênita do vírus Zika, se feita de modo arbitrário, pode elevar o impacto econômico das arboviroses para cerca de R$ 3 bilhões.

 

[1] Aedes aegypti e sociedade: o impacto econômico das arboviroses no Brasil, Teich et al. em “Jornal Brasileiro de Economia da Saúde”, Dez.2017, Vol. 9, Nº 3 – Link: http://jbes.com.br/images/v9n3/267.pdf