Furacão Harvey: as enchentes, o vento… e os mosquitos

Vista aérea da cidade de Port Arthur, no Texas, após a passagem do furacão Harvey (Foto: Wikimedia Commons)
Estamos ignorando uma ameaça à espreita, invisível no momento, mas com grande potencial de dano em um futuro próximo

Por Thomas Bostick*

A resposta dos Estados Unidos aos furacões Harvey, Irma e Maria foi nada menos que heroica. Acabei de voltar de uma visita às áreas mais afetadas no Texas e conheci alguns dos melhores funcionários públicos da nossa nação reagindo a esse desastre natural sem precedentes.

Como comandante geral do Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA, que liderou os esforços para recuperação de desastres, mais recentemente após a supertempestade Sandy, testemunhei em primeira mão a resiliência dos americanos para superar adversidades.

As comunidades na Flórida, no Texas e em Porto Rico certamente se reerguerão.

Minha grande preocupação é que ignoramos uma ameaça à espreita, invisível no momento, mas com grande potencial de dano em um futuro próximo. Essa ameaça existe na forma de um mosquito: o Aedes aegypti, principal transmissor da Zika, dengue, febre amarela e outras doenças.

A crise da Zika no ano passado dá uma pequena amostra do dano que esse mosquito pode infligir. O Aedes aegypti pode se beneficiar de perturbações de grande escala em ambientes urbanos, mas raramente é considerado um problema de saúde pública prioritário no rastro de um desastre natural. Mas deveria ser: esse mosquito prolifera em áreas metropolitanas e a preferência de suas fêmeas por picar humanos para garantir o sangue necessário à produção de ovos férteis fez com que passassem a procriar dentro e ao redor de nossas casas, escritórios e escolas. Os ovos necessitam apenas de alguns mililitros de água para eclodirem em larvas, permitindo que essa ameaça avance num ambiente recém afetado por furacão.

Pesquisas mostram que as doenças transmitidas por mosquito aumentam nos 18 meses seguintes aos furacões. Peter Hotez, reitor da Escola Nacional de Medicina Tropical do Baylor College of Medicine, no Texas, adverte que os mosquitos e seus criadouros se tornarão mais numerosos quando as enchentes recuarem. Após o furacão Katrina, o número de infecções por vírus do Nilo Ocidental aumentou consideravelmente nas regiões afetadas da Louisiana e do Mississippi[1].

Conforme vão-se embora as caravanas da FEMA (Agência Federal de Gerenciamento de Emergências), e à medida que as pessoas começam a reconstruir suas vidas, essa espécie de mosquito invasiva começará a vindicar um preço alto. Nos meses e anos seguintes, ela tem o potencial de se tornar tão perigosa para as pessoas quanto as tempestades em si.

Assim será, se não houver uma ação coordenada agora.

Conforme o Congresso dos EUA se prepara para financiar os esforços de reconstrução, são necessárias ações adicionais para combater a crescente ameaça dos mosquitos e ajudar a atenuar o longo desafio à saúde que seguirá. A bancada do Texas no Congresso e os legisladores estaduais em Austin devem desempenhar um papel primordial neste debate.

Primeiro, devemos fortalecer nosso compromisso de controlar esse mosquito. Nossa resposta atual, uma mistura de nebulização química, emissão de frascos gratuitos de repelente de insetos e postagem de sinais de alerta, mal emprega as ferramentas do século XXI que precisamos para garantir uma vitória decisiva contra esse inimigo. É necessária uma estratégia nacional de esforços agressivos e inovadores para o controle de mosquitos, liderada por autoridades federais e estaduais.

Em segundo lugar, já está mais que na hora de estabelecer um Centro Nacional de Controle de Vetores, um grupo de coordenação interagências capitaneando recursos de todo o governo que gerencie e fortaleça medidas agressivas de controle de mosquitos. Uma nova legislação apresentada no Congresso destaca isso como prioridade, mas o financiamento será crítico. Este novo centro também pode coordenar esforços de controle de mosquitos após desastres – uma capacidade extremamente necessária, mas atualmente não bem gerenciada.

Em terceiro lugar, o Congresso precisa fornecer os recursos necessários para fazer melhorias significativas na infraestrutura de controle de vetor ao longo dos estados mais atingidos por furacões, que também são os estados mais afetados pelo mosquito Aedes aegypti. Em 2016, o Congresso aprovou uma dotação suplementar de US$ 1,1 bilhão, mas pouquíssimo foi alocado para controle de vetor; praticamente nada foi alocado para as novas ferramentas de combate a mosquitos. No entanto, uma quantidade significativa dessa verba foi para o desenvolvimento de uma vacina que pode levar anos para chegar, caso tenha sucesso.

Em quarto lugar, precisamos que as inovações comprovadas cheguem rápido ao mercado. Minha experiência em combate e na recuperação de desastres indica que as agências federais costumam achar uma maneira de trabalhar rápido e dar aos soldados, civis e comunidades o apoio que necessitam. A burocracia praticamente desaparece.

Devemos conceder essa mesma agilidade ao para o alcance de novas metodologias, inovações e vacinas em campo. Infelizmente, anos de atraso para aprovação regulatória de soluções inovadoras são tolerados. A falta de ação imediata pelo governo federal limita o acesso a inovações para as populações ameaçadas, o que deve mudar se quisermos assegurar resultados diferentes.

Enquanto isso, continuam as pulverizações aéreas noturnas de inseticida sobre grandes áreas de Houston para combater a proliferação de mosquitos[2], com os moradores avisados para ficarem dentro de casa durante essas operações. Em parceria com autoridades locais, devemos nos esforçar para atualizar nosso conjunto de ferramentas e modernizar a forma com que gerenciamos as intervenções.

Conforme nos preparamos para reconstruir a Flórida, o Texas e Porto Rico, precisamos nos lembrar da necessidade de apoiar nossos compatriotas em sua transição da recuperação à resiliência. Mais cedo do que imaginamos, a próxima supertempestade gigante estará aqui, e ao fortalecer nossas capacidades de resposta a desastres, também devemos reforçar os esforços para prevenir os surtos de doenças transmitidos pelo mosquito que normalmente seguem em seu rastro.

*Thomas Bostick, é vice-presidente sênior do setor ambiental da Intrexon Corporation. General reformado, foi comandante-geral do Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA (USACE).

Este artigo foi publicado originalmente pelo jornal “The Texas Tribune” no dia 2 de outubro de 2017.


[1] Increase in West Nile Neuroinvasive Disease after Hurricane Katrina”, por Kevin A. Caillouet et al. em Emerging Infectious Diseases, v.14, nº 5, maio/2008.

[2] Aerial Mosquito Spray Operation Scheduled In Houston Area In Wake of Flooding”, Houston Public Media, 13/setembro/2017