EUA veem risco de Brasil exportar febre amarela

Anthony Fauci, autor do artigo que revela a preocupação das autoridades americanas com os surtos de febre amarela urbana no Brasil (Foto: Daniel Soñé Photography)
Diretor de instituto que é referência global no assunto também se diz bastante preocupado com introdução do ciclo urbano da doença

O chefe do principal centro de pesquisa dos EUA na área de doenças infecciosas diz estar preocupado com a possibilidade de o Brasil exportar casos de febre amarela. Anthony Fauci, diretor do NIAID (Instituto Nacional de Doenças Alergênicas e Infecciosas), diz que o atual surto da doença no Brasil já está em estágio “difícil de controlar”.

“Apesar de ser extremamente improvável vermos surtos de febre amarela em área continental dos EUA, onde a densidade de mosquitos é baixa e o risco de exposição limitado, é possível que casos relacionados a viagens ocorram” escreveu o cientista em artigo publicado na semana passada na revista científica “New England Journal of Medicine”[1].

No texto, escrito em coautoria com a infectologista Catharine Paules, o imunologista Fauci não descarta nem a possibilidade de “breves períodos de transmissão local” da febre amarela nos EUA, em estados como Texas, Louisiana e Flórida, onde o Aedes aegypti está presente.

Ameaça histórica

O artigo lembra que, em 1793, um surto de febre amarela na então capital dos EUA, Philadelphia, matou aproximadamente 10% da população e forçou o governo federal a abandonar a cidade. A cidade contava com 45 mil habitantes, e por conta da doença 17 mil fugiram e 5 mil faleceram.

“A atenção pública e o preparo são essenciais para prevenir a ressurgência dessa ameaça histórica”, dizem Fauci e Paules.

Observando de longe a epidemia no Brasil, o cientista diz estar preocupado com a quantidade de casos que vêm sendo registrados desde janeiro perto de grandes centros urbanos, como Rio de Janeiro, Vitória, São Paulo e Belo Horizonte.

“Essa proximidade levanta a preocupação de que, pela primeira vez em décadas, a transmissão urbana de febre amarela ocorra no Brasil”, dizem os autores. Como exemplo eles citam a epidemia urbana da doença ocorrida em Angola em 2015.

“Para prevenir uma ocorrência similar no surto do Brasil ou em outros futuros, são fatores críticos a identificação precoce de casos e a implementação rápida de estratégias de gestão e prevenção em saúde pública, como controle de mosquitos e vacinação apropriada”, afirmam.

Referência:

[1] Yellow Fever — Once Again on the Radar Screen in the Americas, Catharine I. Paules, M.D., e Anthony S. Fauci, M.D. – “The New England Journal of Medicine” DOI: 10.1056/NEJMp1702172