Chikungunya mata mais do que a dengue em 2017

Paciente de chikungunya é examinado (Foto: Luz Sosa - OPAS/OMS)
Melissa Falcão, da Sociedade Brasileira de Infectologia, explica como a letalidade dos vírus transmitidos pelo Aedes aegyptitem evoluído no Brasil

Causa de 99 óbitos registrados no Brasil até agora em 2017, a chikungunya está matando mais que a dengue, causa de morte de 88 pessoas. Os dados mais recentes do Ministério da Saúde chamam atenção porque, nos dois anos anteriores, o potencial letal da chikungunya foi 80% menor que o da dengue. Por quê?

Para entender essa e outras questões relacionadas à letalidade das doenças transmitidas pelo Aedes aegypti selvagem no Brasil, o portal Aedes do Bem™ conversou com Melissa Falcão, infectologista que trabalha no sistema de vigilância epidemiológica de Feira de Santana-BA e é integrante do comitê de arboviroses da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

“É a primeira vez que a gente vê uma epidemia de chikungunya com uma mortalidade tão alta”, diz Melissa. Tradicionalmente, a população idosa é a mais suscetível, mas o que se vê em 2017 é uma ampliação dos perfis de vítima. “Agora a gente vê pacientes jovens – sem nenhum outro fator de risco, sem nenhuma outra doença – morrendo por chikungunya”, explica a infectologista.

Para se ter uma noção da disparidade dos números atuais, em 2016 a chikungunya foi responsável por 30% dos óbitos causados pelas duas arboviroses juntas até o início de setembro daquele ano. No período correspondente de 2017, a doença causou 53% do total de óbitos.

Para a infectologista, ainda não há uma resposta definitiva sobre a razão do aumento na letalidade, mas um fator ajudaria a explicar a situação: a subnotificação. “Será que realmente a chikungunya está sendo uma doença mais grave no Brasil ou nós simplesmente temos uma subnotificação muito grande, e essa porcentagem de óbitos está relacionada a um número maior de casos reais?”, questiona.

Em investigação

Os números citados no início da matéria (99 óbitos por chikungunya e 88 por dengue) se referem apenas aos casos confirmados. Mas há outro número importante nessa conta: os casos em investigação, ocorrências em que o exame laboratorial foi coletado e o resultado está sendo aguardado. No gráfico acima é possível observar a proporção entre óbitos confirmados e aqueles ainda em investigação até setembro de 2017.

“Em geral, até metade dos casos em investigação são descartados. Ou porque não era chikungunya ou porque faltaram dados suficientes para descobrir a causa”, conta Melissa, cujo trabalho em Feira de Santana-BA passa justamente por investigar óbitos causados por arboviroses – o primeiro caso de chikungunya no Brasil foi registrado no município baiano, em setembro de 2014.

A biologia do óbito  

Uma questão relevante quando se estuda a letalidade dos arbovírus é a maneira com que eles impactam a saúde de suas vítimas, porque existe mais de uma maneira de um vírus matar uma pessoa.

Quem contrai a chikungunya pode morrer por decorrência direta da ação do vírus ou de maneira indireta. No primeiro caso, a morte acontece na fase aguda da doença, e em geral se passam dez dias da infecção até o óbito. “Nesse tipo de situação, a morte pode ser causada por conta de uma encefalite, inflamação no sistema nervoso central, infecção no coração ou insuficiência hepática”, explica Melissa.

Para Melissa Falcão, o aumento nas mortes é um sintoma da subnotificação (Foto: Acervo Pessoal)

Já a causa indireta é quando a chikungunya agrava o quadro clínico de um paciente que já tinha algum problema de saúde. “Se há uma pessoa com diabetes ou um problema pulmonar, o vírus pode amplificar a doença que já existia”, explica a infectologista.

Nesse cenário a morte é mais tardia e nem sempre o diagnóstico laboratorial vai concluir que esse paciente morreu por conta da chikungunya, refletindo nas estatísticas oficiais. Ou seja: é provável que o número real de mortos por esse vírus seja ainda maior que o divulgado nos boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde.

No caso da dengue, a morte pode ocorrer devido a uma condição chamada hipovolemia, que é basicamente a diminuição do volume de sangue que circula nas veias e artérias. “Com a dengue, o vaso dilata e o plasma que estava no sangue pode extravasar para o pulmão ou para o abdômen, por exemplo”, conta. Essa sucessão de fatores provoca um choque que pode matar o paciente.

Segundo Melissa, de uma maneira geral, os sintomas mais severos da dengue aparecem depois que a febre vai embora, e dificilmente o paciente morre antes do 5º dia de infecção.

Em adultos, a principal causa de morte pela Zika são as complicações neurológicas que podem ser causadas por invasão direta do vírus no sistema nervoso central ou por ativação autoimune, levando a quadros como a síndrome de Guillain-Barré, meningite e encefalite viral.

A mais letal das arboviroses é a febre amarela, que geralmente mata por lesão hepática ou inflamação no cérebro – o vírus ainda pode causar insuficiência renal e cardíaca.

A recente onda de surtos de febre amarela contaminou 777 pessoas, matando 261 delas. Essa taxa de mortalidade de 33%, apesar de alta, é “o esperado na literatura’, segundo a infectologista.

Considerada a pior onda de surtos de febre amarela da Historia do país, o Ministério da Saúde recentemente decretou seu fim. Oficialmente, ela durou de 1º de dezembro de 2016 até 1º de agosto de 2017.

Felizmente, a vacina contra febre amarela é eficaz e constitui a principal ferramenta de saúde pública no combate a esse vírus.

Taxas de mortalidade

Um dado que causa espanto no fato de a chikungunya estar matando mais que a dengue é a taxa de mortalidade dessas duas doenças. De acordo com Melissa, a literatura científica indica que, a cada 200 casos de dengue, haverá um óbito. Já com chikungunya a morte é 5 vezes menos provável: é esperado um óbito a cada 1000 casos.

“Não se conhece a taxa de mortalidade da Zika, pois até pouco tempo essa doença era pouco estudada e considerada benigna”, diz Melissa. Levando em conta os dados fornecidos pelo Ministério da Saúde em 2016, foram 8 mortes por Zika dentro de um cenário de 216.207 ocorrências, ou um óbito a cada 27 mil casos.