Perseverança mineira

"Temos que ter esperança e confiar nesse projeto, porque é mais uma ferramenta para contribuir", diz Ana Maria (Foto: Thiago Britto/Prefeitura de Juiz de Fora)
Como uma dona de casa de Juiz de Fora (MG) entrou na luta contra o Aedes aegypti e ajuda a implementar uma nova tecnologia contra o mosquito

A dona de casa Ana Maria Mezonato traz a desconfiança característica dos mineiros em sua personalidade. Moradora há 58 anos do bairro Ipiranga, em Juiz de Fora,  ela também tem a simpatia cativante e a disposição para bate-papo de quem nasce nas Minas Gerais.

Com um punhado de folhetos em mãos, Ana – que não gosta de ser chamada de “dona” – circula com desenvoltura entre os moradores de seu bairro e explica como funciona o Aedes do Bem™, a nova tecnologia adotada pela Secretaria de Saúde e pela Prefeitura de Juiz de Fora para combater o vetor da dengue, Zika e chikungunya.

O envolvimento dessa mineira com o projeto é voluntário e começou antes mesmo de a prefeitura realizar o primeiro evento de bairro em que a Oxitec esteve presente para explicar a nova tecnologia, no bairro Ipiranga, região do Santa Luzia, em 22 de Julho. Conselheira municipal de saúde com experiência em controle de endemias, Ana tinha tido seu primeiro contato com a tecnologia só alguns dias antes, em palestra da bióloga Cecília Kosmann, da Oxitec do Brasil, empresa que desenvolveu o Aedes do Bem™.

Na entrevista abaixo, Ana Maria Mezonato conta um pouco sobre sua experiência como agente de saúde e sobre como ela enxerga a chegada de uma nova tecnologia para combater o Aedes aegypti:

Quais os problemas mais graves que você viu em sua atuação como agente de endemias no combate ao Aedes aegypti?
O maior problema que vimos foi a falta de conscientização da população, que ainda não está preparada. Muitos não conseguem entender que a participação de cada um é importante. Por exemplo, é importante tirar 10 minutos por semana para fazer a limpeza, a vistoria de sua casa. Quando fazemos nosso levantamento (o LIRAa – Levantamento de Infestação Rápida do Aedes aegypti), constatamos que 80% ou mais dos focos estão nas residências. Precisamos que a população entenda que precisa colaborar com o poder público, com a saúde pública.

Essa era a maior dificuldade do trabalho realizado na sua época? E como é hoje?
Com certeza e isso continua até hoje. Atualmente sou conselheira de saúde e acompanho muito o desenvolvimento da questão da saúde no território, principalmente na minha região, da qual sou conselheira. Estamos sempre em contato com os agentes de endemias, com os agentes de saúde, e a reclamação continua a mesma. Hoje ficou um pouco mais difícil ainda, porque as pessoas estão recusando a entrada dos agentes de endemias em suas casas.

Por que ocorre essa recusa?
Porque vivemos um momento de violência no país, então as pessoas têm medo. O que a prefeitura fez hoje? Para evitar isso, regionalizou (a atuação dos agentes). Então, os agentes de saúde e endemias ficam mais conhecidos da população e as portas ficam um pouco mais abertas a receber esse conhecimento, que é fundamental. Foi isso que a secretaria fez e foi amplamente discutido e apoiado pelo conselho.

Além desta e de outras medidas para ampliar o combate ao vetor da dengue, Zika e chikungunya está chegando à cidade agora o Aedes do Bem. Como você teve contato com essa tecnologia e o que achou dela num primeiro momento?
Assim que tomei conhecimento, por meio de uma reunião do Conselho de Saúde, minha primeira providência foi buscar na internet quem era a empresa, como funcionava o projeto, onde foi desenvolvido, se já havia sido elaborado em alguma cidade. Cheguei a entrar até em páginas internacionais. O resultado é impressionante. Você tem uma redução drástica da população do vetor, muito grande mesmo. Tem lugar que chegou até a 99%.

O que achou da ideia de a Secretaria de Saúde trazer o Aedes do Bem para o município?
Vai ser mais uma maneira, uma ajuda para contribuir na diminuição da população do Aedes aegypti. Isso vai ajudar muito. A população vai ficar um pouquinho desconfiada, mas já falei que vou me engajar nessa questão para ajudar a informar as pessoas de que a gente precisa dessa tecnologia. Tudo que vem para contribuir para diminuir a população do Aedes aegypti vai ser bem vindo. Eu fiquei meio desconfiada no início, mas hoje estou com total confiança, pelas explicações que ouvi, pelas duas reuniões que já tive com os representantes da empresa e pelo que eu pessoalmente pesquisei na internet com relação à empresa e ao projeto Aedes do Bem™.

Você acredita que o Aedes do Bem, em conjunto com as outras ferramentas do programa de combate ao Aedes aegypti em Juiz de Fora, ajudará a diminuir esse grave problema de saúde pública?
É a minha esperança como cidadã, como moradora da região e como conselheira. Confio nisso. Temos que ter esperança e confiar nesse projeto, porque é mais uma ferramenta para contribuir.

Qual o papel da população no combate ao mosquito com a chegada dessa nova tecnologia?
Acredito muito que a população tem que continuar a fazer o que faz até hoje. Tem que fazer sua vigília, a vistoria de sua casa. Intensificar mais sua contribuição e procurar entender, ver e confiar nessa nova tecnologia e ferramenta para a diminuição do Aedes aegypti. Não podemos mais permitir que nossas famílias, que nossas pessoas queridas, nossos vizinhos morram ou fiquem doentes porque não conseguimos fazer nada. Temos que fazer e temos que contribuir com essa tecnologia em Juiz de Fora.

O papel das lideranças comunitárias é importante para levar informações sobre o Aedes do Bem à população?
Sim. Demais. São os maiores multiplicadores. Os agentes de saúde, agentes de endemias, todas nossas lideranças, presidentes de associações de bairros e todos os conselheiros de saúde. Estamos ali monitorando, discutindo, cobrando, e nós somos os atores principais para levar o conhecimento dessa nova tecnologia à população.