Infecção prévia por dengue potencializa danos da Zika

Simulação digital mostra um anticorpo, em azul, interagindo com a proteína do vírus da dengue, em vermelho (Laguna Design/Science Source)
Sintomas são mais severos quando sistema imune reage a infecção em sequência, mostra experimento

Um experimento realizado em camundongos infectados com o vírus Zika mostrou que os indivíduos com histórico de dengue tinham sintomas muito mais severos, mesmo que já tivessem se recuperado da primeira infecção.

A pesquisa, realizada por cientistas do Hospital Mount Sinai, de Nova York, pode ajudar a explicar por que alguns casos de Zika levam a consequências extremas, como o nascimento de crianças microcefálicas, enquanto outros não. O experimento está descrito em um estudo publicado na revista “Science” [1].

Segundo os cientistas, liderados pelo microbiologista Jean Lim, o efeito observado nos roedores se deve a um fenômeno conhecido como Potencialização Dependente de Anticorpos (ADE, na sigla em inglês). Trata-se do mesmo processo que faz com que pessoas que já tiveram dengue desenvolvam uma forma mais agressiva da doença na segunda contaminação, a dengue grave.

As conclusões do estudo, afirmam os autores, também valem para indivíduos que antes da Zika, já haviam sido contaminado pela Febre do Nilo Ocidental. O experimento se limitou a examinar camundongos, mas os cientistas acreditam que a explicação se estenda também a humanos, já que existem evidências circunstanciais do problema.

No estudo publicado na “Science”, os cientistas relatam que os camundongos vítimas da infecção em sequência (dengue depois Zika) eram mais propensos a manifestar febre, tinham maior carga de vírus no sangue, morriam com mais frequência. Além disso, os animais eram mais propensos a apresentar células infectadas na  medula espinhal, no sistema nervoso, pista importante para entender por que, em humanos, tantos casos de Zika resultaram no nascimento de bebês com microcefalia.

Viremia em sequência

O experimento nos camundongos foi feito com material sanguíneo extraído de humanos que já haviam sido infectados pelos vírus. Os pesquisadores receberam dois tipos de amostras de plasma: aquelas doadas por quem já teve dengue ou Febre do Nilo Ocidental e as doadas por quem não teve nenhuma dessas doenças.

Os cientistas também realizaram experimento com células isoladas em pires de laboratório. Ao acrescentar células ao plasma para analisar como elas iriam interagir com o vírus Zika, ficou claro que a infecção era mais eficiente nas amostras de doadores previamente contaminados por dengue ou Febre do Nilo Ocidental.

Posteriormente, camundongos foram infectados com Zika e depois receberam plasma contendo anticorpos de dengue. Quase 80% deles morreram após oito dias. Para a Febre do Nilo Ocidental a taxa de mortalidade ficou em 40%. Os roedores que receberam plasma livre de anticorpos sobreviveram em mais de 93% dos casos.

Referências:

 [1] Enhancement of Zika virus pathogenesis by preexisting antiflavivirus immunity, Bardina et al. – Science – 30.mar.2017 – eaal4365