Como medir uma população de Aedes aegypti

Ovitrampa em uma casa em Piracicaba: monitorar para proteger (Foto: Alexandre Carvalho)
Conheça as ovitrampas, as armadilhas de estrutura simples usadas para monitorar a presença do mosquito transmissor da dengue, Zika e chikungunya

Se a liberação de mosquitos geneticamente modificados para combater o Aedes aegypti é a face mais conhecida dos projetos do Aedes do Bem™!, há uma outra etapa igualmente importante: o monitoramento. É ele quem diz se a população selvagem do vetor de dengue, Zika e chikungunya de fato está sendo reduzida. Esse trabalho não poderia ser feito não fosse um equipamento pouco conhecido do público: a ovitrampa, uma armadilha para capturar ovos do mosquito.

Apesar de ser a principal ferramenta de um processo tão complexo quanto o monitoramento, a ovitrampa se resume a um par de objetos simples: um pote de plástico e uma palheta de madeira.

O pote tem capacidade de armazenamento de 1 litro e sua cor é preta, já que o Aedes aegypti é atraído por cores escuras. A palheta é uma espátula de madeira compensada, com um lado liso e outro rugoso.

A palheta fica dentro do pote, onde também há água limpa – é importante que uma parte da palheta esteja submergida e a outra se mantenha seca; isso porque os ovos da fêmea do Aedes precisam secar antes de serem molhados, para então eclodirem. “O Aedes procura água limpa, mas coloca o ovo um pouco acima da linha da água”, diz Guilherme Trivellato, coordenador de operações de campo da Oxitec, a empresa que produz o Aedes do Bem™.

Guilherme Trivellato realizando o trabalho de manutenção das ovitrampas (Foto: Alexandre Carvalho)

Para que o processo de formação do embrião seja finalizado, é necessário que o ovo do mosquito seque.  “O ovo precisa ficar de 3 a 4 dias fora d´água. Então a fêmea coloca os ovos onde ela espera que tenha inundação. Ela espera a ajuda do ciclo da chuva”.  As fêmeas grávidas não depositam seus ovos em superfícies lisas, então é importante que o lado rugoso esteja virado pra cima. Ao longo da sua vida, uma fêmea pode colocar até 300 ovos.

No final das contas, o objetivo por trás de todas as características de uma ovitrampa é simular um criadouro de Aedes aegypti. “A ideia é fazer uma medida indireta da população de fêmeas pelo número de ovos que capturamos”, explica Trivellato.

Manutenção periódica

Para evitar que as ovitrampas sirvam inadvertidamente como criadouro de mosquito, elas são trocadas semanalmente, impedindo que qualquer ovo depositado ali tenha tempo de se desenvolver até gerar um mosquito adulto, algo que levaria no mínimo 10 dias.

As ovitrampas são colocadas em casas de moradores que se voluntariam, mas também podem ser encontradas em lojas, postos de saúde, escolas ou terminais de ônibus. Quem tem uma armadilha dessas em casa não precisa fazer nada além de ceder o espaço. “Quanto menos o morador mexer na ovitrampa, melhor ela vai funcionar”, afirma o coordenador.

Como as armadilhas precisam ser trocadas sempre, os técnicos procuram deixá-las em lugares de fácil acesso – em cima do muro, perto do portão, ou no relógio de água, por exemplo – para não terem de incomodar moradores com o serviço.

Quando a equipe técnica da Oxitec troca a armadilha, a água é dispensada, o pote antigo é retirado para ser lavado e um novo é colocado no lugar, junto com uma nova palheta. A palheta antiga então é levada para o laboratório – é nessa etapa que os ovos são analisados e é feita a avaliação sobre o sucesso das liberações do Aedes do Bem™! na região.

Pote, palheta e água: tecnologia simples com desdobramentos complexos (Foto: Alexandre Carvalho)

“Trocando as armadilhas semanalmente, em um ano nós temos medidas da população do mosquito em 52 momentos diferentes”, conta Trivellato. No laboratório, os ovos recolhidos na ovitrampa ficam secando por pelo menos três dias. Depois desse período, é feita a contagem dos ovos.

O próximo passo é a eclosão: fazer com que as larvas de mosquito saiam dos ovos. Para estimular esse processo, a palheta é colocada em um recipiente com água previamente fervida, mas já em uma temperatura fria, de baixa oxigenação – a ausência de oxigênio provoca a eclosão simultânea dos ovos.

“Quando o ovo eclode, nós pegamos a larva de primeiro ínstar (primeiro estágio larval) e passamos no microscópio de fluorescência. O gene marcador torna essa larva fluorescente quando está sob uma luz especial. Então, contamos quantas são fluorescentes e quantas não são. As que não refletem a luz são as larvas selvagens, que depois são separadas e identificadas por espécie: se é Aedes aegypti, se é Aedes albopictus. Depois de tudo isso, a gente vai ter o número de palhetas positivas (que contém ovos), o número de ovos em cada palheta, além do o número de larvas de Aedes albopictus, Aedes aegypti e dos filhos do Aedes do Bem™!”, descreve o coordenador.

O Aedes do Bem™! possui dois genes a mais que o mosquito selvagem: um impede que sua prole chegue à fase adulta, outro é o que torna suas larvas fluorescentes e facilmente identíficáveis.

Analisando a proporção entre filhos do mosquito selvagem e filhos do Aedes do Bem™!, os cientistas da Oxitec calculam a taxa de cópula. “Se ao menos metade dos ovos encontrados na ovitrampa forem de descendentes do Aedes do Bem™!, é porque a população selvagem está diminuindo”, explica. De acordo com Trivellato, a partir dos 50% começa a ter queda, mas quanto maior essa porcentagem, mais rápida será a supressão do vetor da dengue, Zika e chikungunya.

Graças a esse trabalho descrito acima foi possível verificar, por exemplo, a redução de 81% na população do Aedes aegypti selvagem no CECAP/Eldorado, primeira área de Piracicaba-SP a ser tratada com o Aedes do Bem™!.

A ovitrampa, porém, é uma invenção mais antiga. Foi descrita pela primeira vez em 1965 por Richard Fay e Albert Perry, uma dupla de pesquisadores dos CDC (Centros de Prevenção e Controle de Doenças dos EUA). “Estudos laboratoriais das preferências de oviposição do Aedes aegypti” [1] é o nome do trabalho que trata da tecnologia, que é uma ferramenta de monitoramento recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Capturando mosquitos adultos

Além das ovitrampas, outro dispositivo é usado para a ajudar no monitoramento, mas capturando mosquitos já adultos. Essa armadilha, a BG-Sentinel®, é composta de um cesto, um saco coletor e um pequeno ventilador, que deixa o mosquito preso ao fundo do saco. Ao contrário da ovitrampa, a ela fornece uma medida direta da população de adultos. A armadilha foi criada pela empresa Biogents, daí a sigla que integra seu nome.

A BG também é uma peça importante no processo de monitoramento (Foto: Alexandre Carvalho)

“Antes de iniciar a liberação do mosquito, a gente usa a BG para entender a proporção entre machos e fêmeas daquele bairro”, conta Trivellato. Após o início da liberação do Aedes do Bem™!, a BG indica como essa proporção foi alterada.

“Dependendo de quantos machos e fêmeas são capturados nessas armadilhas, a gente estima qual a nossa taxa de inundação, ou seja: quantos mosquitos transgênicos a gente solta pra cada selvagem. Com a BG a gente começa a entender mais a dinâmica da ecologia do mosquito ao ar livre”, diz.

Na prática

Hoje, Piracicaba-SP tem cerca de 500 ovitrampas espalhadas pela cidade. Esse número representa a cobertura de monitoramento de toda a área tratada no município – 11 bairros da região central e a região do CECAP/Eldorado – além das chamadas áreas de controle; locais que não recebem o Aedes do Bem™!, mas cujas populações de mosquito são monitoradas para efeito comparativo. “É uma medida de supressão relativa. Antes da liberação a gente mede a área tratada e a não tratada. Depois da liberação medimos novamente e comparamos a mudança”.

A próxima cidade a ser tratada com o Aedes do Bem™! será Juiz de Fora-MG. A primeira fase do projeto irá proteger 10 mil pessoas de três bairros diferentes da cidade: Monte Castelo, Santa Luzia, Vila Olavo Costa.

As liberações, que devem começar em outubro de 2017, serão acompanhadas de um monitoramento que contará com 100 ovitrampas por km² (uma armadilha a 100 metros de distância da outra), número que deixa Trivellato confiante para avaliar o sucesso das liberações. “Vamos gerar um mapa bastante confiável”.

Referência:

[1] Fay RW, Perry AS, 1965, Laboratory studies of ovipositional preferences of Aedes aegypti, Mosquito News 25 (3) 276-281