Aedes aegypti pode transmitir dengue, Zika e chikungunya numa única picada

Greg Ebel, coautor do estudo, se mostrou bastante surpreso com os resultados encontrados (Foto: John Eisele/CSU Photography)
Resultado de experimento contraria expectativa de cientistas, que esperavam ver um vírus suprimir os outros

Uma só picada do Aedes aegypti pode transmitir simultaneamente dengue, Zika e chikungunya, mostrou um experimento feito por biólogos nos Estados Unidos. A descoberta, que contraria expectativas dos cientistas, sugere que a epidemia de um desses vírus não necessariamente ajuda a frear as dos outros.

No experimento, cujo resultado retoma a preocupação clínica para pacientes com múltiplas infecções, os pesquisadores criaram um sistema especial para alimentar os mosquitos. Frascos especiais cheios de sangue bovino possuíam uma face coberta com tecido intestinal suíno. Os insetos que o “picavam” eram infectados pelos vírus que os pesquisadores administravam a cada frasco.

“Nós expusemos os mosquitos aos vírus da chikungunya, dengue e Zika, tanto isoladamente quanto em infecções duplas e triplas”, escreveram os cientistas, liderados pelo microbiologista Gregory Ebel, em estudo[1] na revista científica “Nature Communications”.

Para avaliar a capacidade de os Aedes aegypti transmitirem múltiplas infecções, o grupo de cientistas analisou amostras de saliva dos insetos contaminados. “Os resultados mostram que esses mosquitos podem ser infectados e podem transmitir todas as combinações desses vírus simultaneamente”, afirmaram.

Competição x cooperação

A constatação surpreendeu, de certo modo, os cientistas. Acreditava-se que, ao habitarem o intestino de um mesmo mosquito, os vírus entrariam em competição por recursos celulares necessários à sua replicação. Nesse cenário, seria razoável esperar que um deles prevalecesse sobre os outros. Mas não foi o que se verificou.

O que os cientistas acreditam que pode ter ocorrido, pelo contrário, foi a convivência entre diferentes vírus gerar um ambiente de cooperação. “Todos esses vírus têm mecanismos para suprimir a imunidade do mosquito, o que poderia levar à sinergia”, afirmou Ebel, em comunicado à imprensa.

Múltipla infecção

Além de implicações para epidemiologia, o novo estudo traz de volta o debate sobre as consequências clínicas para pacientes que contraem mais de uma infecção simultânea por arboviroses, assunto pouco abordado na literatura médica.

O primeiro relato médico de um paciente infectado simultaneamente pelos três vírus foi publicado em um estudo[2] de médicos colombianos no ano passado. O paciente se recuperou. É possível, porém, que episódios mais graves de viremia atribuídos a um único vírus possam ser na verdade fruto de coinfecção.

“Dependendo do diagnóstico usado, e dependendo de o que clínicos acham, eles podem não notar que há outro vírus”, diz Claudia Ruckert, coautora de Ebert no estudo. “Isso poderia levar a interpretações erradas sobre severidade da doença.”

Referências

[1] Impact of simultaneous exposure to arboviruses on infection and transmission by Aedes aegypti mosquitoes, Ruckert et al. em “Nature Communications”, 19.maio.2017, v8 n15412. Link: doi:10.1038/ncomms15412

[2] Dengue, chikungunya and Zika co-infection in a patient from Colombia, Lilamil-Gómez et al. em “Journal of Infection and Public Health”, 2.janeiro.2016, v9 n5 p684–686. Link: doi:10.1016/j.jiph.2015.12.002